Enviei uma mensagem para uma amiga dizendo “preciso conversar” (estou no limiar de uma coisa grave), já foram oito minutos desde o recebimento e até agora nada. Resolvi conversar sozinho, e o melhor jeito de fazer isso ainda é escrever. Acho que ando meio repetitivo. Sempre fui de embarcar nessa coisa de crise, aliás, sempre fui de embarcar em qualquer emoção, se tem uma coisa que me move nessa vida é viver, do contrário, me deixa dormir mais um pouco.
Ao mesmo tempo, sempre achei que era capaz de passar pela vida de forma razoavelmente tranquila, administrando minhas angústias por meio de dramas controlados sem maiores catástrofes que acabassem por desembocar em algum tipo desnecessário de colapso. Mas -surpresa- o raio da crise dos 30 chegou sem pedir licença. Na verdade, tudo começou no aniversário de 29 anos. Estava me tornando uma balzaquiana. Até agora eu não acredito que completei essa idade. Se eu soubesse mentir não teria contado isso para mais ninguém que perguntasse. Não me sinto deprimido, infeliz, muito menos arrependido com a minha trajetória. Não é essa a questão. Mas essa coisa de fazer 30 anos dentro de alguns dias vem martelando minha cabeça de forma insistente há meses. Está tudo bem comigo, está tudo super bem, mas começou a bater uma ansiedade estranha, uma voz inconveniente que berra “você já não é mais jovem, você já não é mais tão jovem.
Quando me falavam em crise dos 30, achava que isso só batia para quem sentia um vazio muito profundo em alguma esfera da vida: trabalho, relacionamento, família, dinheiro. E digo para vocês, eu sou muito privilegiado. Sempre tive sorte nos lugares onde trabalhei. Tudo começou há cerca de quinze anos no meu primeiro estágio, e de lá pra cá foi uma porrada de crescimento. E o que trago de mais importante, grandes amizades. E como é bom cruzar com pessoas... As que duram um dia e as que ficam “para sempre”. Tem gente que marca a gente na primeira troca de olhar e tem gente que não desiste da gente. - Aqui vai um parênteses para os meus amigos mais especiais. Mas é claro eu me dei mal também. Lá se vão cinco relacionamentos frustrados. De seis anos a dez dias. Nesta ordem. Parece que a exigência aumenta na proporção que a paciência diminui com o chegar da idade. E não é por falta de orientação. Receber, aceitar, esperar, agradecer e nunca desistir. A minha mãe é a pessoa mais presente na minha vida. Ela é meu verdadeiro exemplo. Às vezes eu a olho e penso “como pode ser tão forte? Mas como costumo .
Percebi que esses fatores podem agravar as angústias da chegada aos 30, mas mesmo aqueles que estão bem consigo sentem a água bater na bunda.
O corpo começa a se comportar de forma estranha: aparecem dores nas costas, o fôlego diminui, uma semana comendo ovo e alface - aquela sobremesa no final de semana e quilos chegam sem avisar, as coisas amolecem, pregas no canto dos olhos, fios brancos aleatórios, ressaca de três dias, azia e má digestão. As noites de sono mudam (mesmo que você não tenha filhos). Aquela coisa de cair na cama, adormecer automaticamente e só acordar no dia seguinte começa a se tornar rara. Acordar cansado vira praxe. Agora se volta a fazer xixi de madrugada. Há dificuldade para dormir até tarde no fim de semana. Coisas estranhas acontecem.
Convites de casamento chegam a todo momento, até daquele amigo que você jurava que nunca ficaria mais de três meses com a mesma mulher. A timeline agora é cheia de barrigas grandes e bebês fofos. O círculo de amigos fica mais restrito. Agora não é mais "só chegar" onde eles estão, tudo tem que ser muito bem programado, e que aleluia se todos comparecerem.
De repente, as pessoas que fazem sucesso (os cantores, os jogadores de futebol, os blogueiros, youtubers, os jovens executivos) são mais novos que você. Como assim?! Como alguém mais novo que eu já pode estar no topo?! Eles são crianças, eles nasceram em 2000! Mas quem nasceu em 2000 já não é mais criança. Pois é, tu já não és tão novo assim. O conceito de “velho” muda, mas o de “jovem” permanece o mesmo. O tempo passou. É hora de virar “adulto”.
E aí pra mim vem a pior parte: a sensação de que meus picos de liberdade já passaram. A época de errar consciente já passou, a época de fazer grandes bobagens já passou, a época de curtir a solteirice, de fazer mochilão, dividir o quarto com cinco pessoas, passar noites em claro, voltar pra casa todo embarrado, de tomar porre na terça-feira.- Na verdade, não há nada que me impeça de continuar nessa vida, exceto aquela voz que sussurra no meu ouvido “escuta, você já tem 30 anos…”.
Meu Deus, as novidades parecem cada vez mais escassas!!!
Parece que tudo já foi sentido, só muda a intensidade.
Parece que tudo já foi sentido, só muda a intensidade.
Eu tenho a sensação de que minha vida deveria estar de outro jeito, mas como fazer isso se eu ainda me sinto no auge dos meus 20 anos? Está passando muito rápido, como vou chegar aos 30 se eu tenho pendências com os meus 20?
Fiz um teste com amigos pelo Instagram de trinta coisas para fazer antes dos trinta, ali deu pra fazer uma auditoria da vida, fiquei feliz, aliviado e orgulhoso. Meus trinta foram bem vividos!, mas na lista de pendências ainda estão: fazer a barriga ficar dura, ir pra India, tirar uma foto nas piramides do Egito, assistir uma série por completo no Netflix, fazer uma tatuagem com uma amiga, correr uma maratona, pular de paraquedas, fazer trabalho voluntário no Congo, tomar Santo Daime, ir na casa de swing, escrever um livro, deixar o sovaco cabeludo, comer bolo de maconha, fugir com um desconhecido, e o que considero a mais difícil de todas: casar (brincadeirinha), “ser o que quiser ser”. Dá pra fazer tudo isso ainda? Dá. Mas vou fazer? Sei que provavelmente não.
Parece que até agora eu estava emitindo promissórias e então chega a hora de pagar a contar. Daí o medo.
Sim, eu sei que está tudo bem. Sei que não estou verdadeiramente velho, e que há muita vida e muita coisa boa pela frente. Mas não me peçam para me despedir da minha juventude sem sofrer um pouco - ou muito. Sou o louco das emoções, lembram? Eu gosto do drama, mas não dá pra negar, a juventude está indo embora. Como bem disse a Sandy, “tenho sonhos adolescentes, mas a costas doem. Sou jovem pra ser velho e velho pra ser jovem”. Esse senso de realidade está misturado com uma forte sensação de esperança. E essa incompatibilidade de corpo e calendário com alma e cabeça não são lá muito fáceis de digerir. Vai ver que é daí que vem a azia.
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