Depois daquele sonho, cada vez que eu me olhava no espelho,
atrás de mim estava o outro. Nas vitrines das lojas, na rua, ele andava ao meu lado; Um pouco atrás.
REQUEBRANDO SEM PUDOR algum. Fazia careta, dava saltos, soltava gargalhada. Cantava bem alto
Fui me dando conta de que nada era novidade. Eu o conhecia desde criança. Por isso não me espantei com
sua aparição. Era a ele que eu via no espelho, quando me perguntava, e se eu agora sorrir e ele continuar sério?
E se eu lavantar a mão e ele não fizer o mesmo? Espreitando entyre minhas pálpebras, sorrindo ou murmurando nos cantos de minha boca, ele nasceu comigo. Dizendo NÃO quando eu obedientemente dizia SIM. Infrigindo quando eu cumpria; E quando o vi separado de mim, apenas disse, ah, então era isso, eu era esse!
E não achei nada esquisito aquele homem vivendo comigo na mesma casa sem ninguém saber.
Tentei me abrir a respeito desse fato, porque guardar um segredo sempre me pareceu traição, embora eu nem soubesse a quem estava traindo. Mas eu era assim, sempre culpado, sempre em dúvida e me sentindo em dívida. Nunca houve ocasião, nem tive coragem, nem encontrei palavras pra contar tudo,
É bem feliz, o meu outro, o de nome nunca pronunciado, Ninguém lhe cobra nada nem lhe pede coisas, nem mesmo uma xícara de café ou uma camisa bem passada. O outro não se importa: assume sua diferença, faz tudo que quer, senta-se de pernas abertas, senta no braço da poltrona, tira o fiapo de carne dos dentes com a unha - mil coisas que eu só consigo fazer em pensamentos - pois eu respeito as regras.
Começo a achar que o outro pode ser a minha parte melhor. Ele nem precisa mentir. Ele é a sua verdade, r não interessa nem um pouquinho pelo que as pessoas pensam; Ele está se lixando.
......... Estou aprendendo a trocar de lugar com ele, estou entrando no seu papel, enquanto ele se diverte no meu. Ja me vejo em todos lugares enquanto ele agora me observa preucupado.

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