Mas esta noite sinto que está vindo isso que se instalou em mim sem eu saber: a minha hora chegou. Sem entendimento nem explicação, estou por parir. Peguei muitas toalhas, deixei o telefone fora do gancho, e me deitei na velha cama que range a qualquer movimento:
Pernas erguidas e abertas, nua como quando nasci e nunca fiquei a não ser na hora do banho rápido todas as manhãs, estou à espera. É o único jeito que encontrei de liquidar com meu espectro. No começo nada aconteceu. A criatura parou de se mexer, quem sabe morreu e vai sair, como um bebê morto e já decomposto que uma.
Agora a coisa se move outra vez. Impulsiona o corpo para fora, quer sair. A dor é pavorosa, e eu grito, sozinha na casa posso gritar feito um animal esquartejado em vida. Sozinha sem companhia e sem ajuda, eu grito e com minha voz reboa pela casa grande, velha e vazia como num despenhadeira ou num deserto.
Aos poucos ele vem. Eu me contraio toda, faço força como sei que se deve fazer nessa hora, e berro, e choro e me desespero, meus dentes batem e rangem de pura agonia. Quero fechar as pernas e voltar ao tempo, e apagar esse horror, mas não consigo; Esse horror é concreto, não vai se assustar com meu pensamento nem fugir com minhas caretas. Só quando o medonho parto tiver terminado, vou poder matar a criatura, espantar o mal que me ataca, e acordar e estar para sempre livre de volta à minha vida.
continua, ou não .....
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